Vivi

Vivi
essa sou eu, mais ou menos, na verdade essa é a Vivi...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O BORDADO ENCANTADO - FINAL

Dali avistou um castelo de cristal.
Tomou um banho no riacho, e enquanto se aproximava,
ouvia um canto delicado, vindo de um jardim onde
graciosas jovens bordavam.
Espantadas com o relincho do cavalo,
as moças cercaram o rapaz com muitas perguntas.
Envaidecido com tantas atenções, ele nem se lembrou da falta dos dentes.

A Rainha das Fadas saiu do castelo e veio falar com o estranho.
- O que o traz ao nosso reino, forasteiro?
- Procuro o bordado de minha mãe.
- O vento tomou-o emprestado.
- Emprestado?
- Sim. Quando alguém cria uma técnica nova,
as fadas são obrigadas a aprendê-la para inspirar outras bordadeiras.
Falta saber como ela bordou as águas do lago e como conseguiu tão
belos tons de vermelho no horizonte.
- Quanto tempo ainda demoram?
- Não mais de dois dias e serás nosso hóspede.
Temos, porém, uma condição, meu jovem: do reino,
só poderá levar o bordado e boas lembranças.
Somente as fadas podem viver nesse reino.

A fada de vermelho se apaixonara à primeira
vista pelo rapaz e ele por ela.
Para se consolar, a moça resolveu aplicar uma pequena
fada de vermelho no bordado para que o amado se lembrasse
dela toda vez que o olhasse.
"Por que não era como os humanos, não impedidos de amar?"

Antes mesmo do dia clarear,
o rapaz pegou o cavalo e preparou-se para partir,
levando apenas o bordado e a dor da separação.


No retorno, as vagas do mar, o frio das geleiras,
o calor das labaredas não ameaçaram o moço.
A velhinha, o recebeu feliz.
- Estou orgulhosa de você.
Arrancou os dentes do cavalo devolvendo ao jovem.
- Agora você vai calçar essas sandálias mágicas
e estará em cada num minuto.
Sei que seu coração chora, mas lembre-se de que
NUNCA SABEMOS O QUE PODERÁ NOS OCORRER.

Ao chegar na aldeia onde morava,
uma vizinha veio falar-lhe:
- Sua mãe não se alimenta, não fica mais de pé,
não sai da cama dia e noite.
O moço, desenrolando o bordado, gritou:
- Olhe minha mãe, olhe seu bordado!
Consegui trazê-lo de volta!
- Vamos para fora - falou a mãe, já fortalecida.
- Finalmente poderemos admirar o bordado em paz.

Um inesperado vento, porém, surgiu novamente no auge
dos festejos e arrancou o bordado das mãos da mulher.
Só que desta vez, assim que ganhou altura,
o bordado ficou parado no céu, aumentando aos poucos de
tamanho até recobrir a aldeia.
E cada pedacinho ganhava vida, transformando o pobre vilarejo
num lindo, feliz e rico povoado.
- É um milagre! Um verdadeiro milagre!
- repetiam todos.

Feliz, o filho da viúva saiu correndo pelos imensos campos de flores,
achando o lugar tão belo como o da montanha encantada.
Pôs-se a chorar e lembrar da amada e foi ao lago na esperança
de encontrar consolo na placidez de suas águas.
De lá saiu uma jovem parecida com a fada de vermelho.
- ....quando tudo ganhou vida, a imagem que eu bordei também se tornou real.
Assim, estou aqui, sem ter saído de lá.
O jovem tomou a amada nos braços e a pediu em casamento.
E foram felizes naquela aldeia, iluminada todo final de tarde
pelo brilho de um sol avermelhado.

Os dois irmãos...dizem que vagam até hoje por ai.


Edmir Perrotti...Col. Lua Nova, Paulinas, 1998 Prêmio Jabuti 1997

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O BORDADO ENCANTADO

1ª parte

Uma bordadeira viúva, muito pobre,
deparou-se certo dia com um trabalho de grande perfeição
e desejou criar outro igual...

O BORDADO ENCANTADO

...a partir de então, depois de dedicar-se até tarde aos trabalhos que vendia no mercado, avançava noite adentro, tentando dar forma a seus sonhos.

Iluminada apenas por uma tocha que exalava tênue mas irritadiça fumaça,
seus olhos arderam e verteram copiosas lágrimas.
Então ela teve uma idéia:
Reteria as lágrimas no lago da paisagem que estava bordando.
Mas a irritação foi piorando e chegou a um ponto tal que tingiu de sangue
as lágrimas da obstinada mulher.
Assim que conseguiu terminar o trabalho,
a viúva mostrou-o aos filhos que ficaram maravilhados.
O bordado era tocado por um sopro mágico.

Como a mãe teve forças para realizar semelhante tarefa?

Para ver o bordado sob os primeiros raios de sol,
a viúva foi para fora, seguida pelos filhos.
Aos poucos, toda a aldeia juntou-se a eles e não houve quem não se
Surpreendesse com a beleza radiante que tinham diante de si.

No auge da festa...
um forte vento envolveu a bordadeira, arrancou a obra de suas mãos e sem que
ninguém tivesse tempo para nada, levou-o feito pipa para além das montanhas.
A bordadeira pôs-se a chorar.


Depois desse dia...
a bordadeira foi tomada por tamanha tristeza, que acabou adoecendo.
Perdera a vontade de trabalhar, de comer e de falar. Só cantava:

"Quem me trouxe assim de longe
bordados tão delicados?
Quem me deu risos e flores
sem diluir meus pesares?"

Desse modo...
todo final de tarde, seu lamento espalhava-se pela aldeia afora,
enchendo de melancolia o coração das gentes que viviam no lugar.

Um dia...não suportando mais, chamou os filhos;
- Meus queridos, tenho que procurar meu bordado.
- Fique em casa, mãe. Eu vou procurar o bordado em seu lugar
- falou o filho mais velho.
No dia seguinte, ele partiu em direção ao Leste.
A viúva voltou a bordar algums peças e vendia no mercado.
E o tempo passou.

Como não tinha notícias do filho, adoeceu novamente.
O segundo filho saiu à procura do irmão e não mais retornou.
Uma noite, a mulher anunciou que ela mesma
iria atrás dos filhos e de seu bordado.
-Mas, minha mãe!
No seu estado não agüentará andar noite e dia pelas estradas!
- falou o filho caçula.
E partiu.


Dois dias depois, avistou uma cabana.
Uma velhinha apareceu à porta e perguntou o que ele desejava.
- Estou à procura de meus irmãos e de um bordado levado pelo vento.
- falou o moço.
- Dei pousada a seus dois irmãos, porém, antes do dia amanhecer,
eles fugiram em direção contrária, com os saquinhos de ouro que eu lhes
ofereci par alguma eventualidade.
Soube que não pensam mais em voltar para casa.

O jovem ficou indignado com o que ouviu e envergonhado,
não conseguiu reter as lágrimas.
A velhinha falou:
- Em primeiro lugar, é preciso desencantar o cavalo de pedra que
está na entrada da cabana.
Só ele sabe chegar ao bordado.
Com uma pedra, devo arrancar dez dentes seus e implantá-los no cavalo.
Depois terá de comer dez morangos do canteiro e tão logo
faça isso estará prestes a partir.

O rapazinho ficou apavorado.
- Nào forçe seu coração se ele o impede de prosseguir.
Sua mãe compreenderá.- falou a boa velhinha.
E antes de romper o dia, ele anunciou:
- Boa senhora! Quebre meus dentes!
Nào vou abandonar meu caminho! Estou pronto.
Inexplicavelmente nenhuma gota de sangue saiu da boca do rapaz
e a dor cessou assim que o cavalo comeu os dez morangos.
No momento da partida, a velhinha disse ainda:
- Para recuperar o bordado, você terá que vencer também o fogo,
o frio e a violência das águas.
Um único descuido e as chamas o reduzirão a cinzas,
o frio o transformará em estátua e as águas o sugarão para sempre.

Depois de muitos dias de longas lutas contra as labaredas de um vulcão,
revoltas águas do mar,
glaciais temperaturas,
o rapaz chegou ao sopé de uma montanha.......

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ADULTAS

Espetáculo: Cárcere Dia: 06/10/2010 – Quarta-Feira
20horas

Sinopse Cárcere apresenta uma semana na vida de um presidiário que será refém numa rebelião iminente. Ele vive em ritmo de contagem regressiva e suas expectativas, impressões, reflexões e sensações são expressadas por ele num diário que o ator leva para o placo.
Reflexão do Espetáculo Cárcere (e importância social da arte) Na base do projeto CÁRCERE esta a concepção de uma arte popular entendida como uma arte acessível a todos sem procurar ser destinada a um público especifica.
Combinamos os mais diversos elementos: a música, a literatura, a mínica e o teatro em suas varias acepções: erudito, popular, regional. Primamos por tornar a arte simples, sem perder a caráter poético e a erudição, apostando também na sensibilização dos espectadores.
Atrelando a concepção do espetáculo ao processo de difusão cultural, a peça se estrutura sobre a questão de como democratizar o acesso á arte. Sendo assim, a democratização não e apenas um compromisso, mas a própria razão de ser do espetáculo. E isso se dá de diversas formas, seja através de apresentações em contextos físicos e sociais adversos, seja nas parcerias que já foram feitas e que serão feitas por todo pais na viabilização desse acontecimento teatral.


Espetáculo: A Serpente Dia: 07/10/2010 – Quinta-Feira
20 horas

Sinopse Em um mesmo apartamento presenteado pelo pai, duas irmãs vivem com seus maridos em quartos vizinhos. Tendo celebrado seu casamento no mesmo dia em que a irmã, Lígia vê sua relação se desfazer logo na primeira cena da peça, com Décio, seu marido, indo embora de casa sem nunca ter sido capaz de consumar o casamento. Virgem após um ano de casada, abandonada pelo marido, ela entra em desespero e ameaça se jogar pela janela. É Guida, a irmã, quem evita a tragédia oferecendo à Lígia uma noite de amor com seu marido, Paulo. Ambos se envolvem numa paixão repentina e a impossibilidade de viver esse amor as levará a cumprirem destinos incertos.

Espetáculo: Fodorovska Dia:08/10/2010 – Sexta-Feira
20 horas

Sinopse
Utilizando a linguagem de HQs e desenhos animados adultos e mesclando referencias que vão de Gilles Lipovetsky a South Park, esta comédia mostra a festa de comemoração dos 250 anos da Fábrica de Supositórios Brasil, em que a atração principal é uma peça na qual um homem passa seus últimos momentos cercados por personagens como uma mulher que só dorme, um coelho escritor e a estrela pop do Quirquistão Sonja Fodorovska. Fodorovska A comédia mergulha no universo pop ao discorrer sobre um homem que, confinado a uma maca hospitalar, procura uma filosofia que justifique a existência enquanto se vê as voltas com figuras como um coelho escritor, um ser que só desperta do sono para dizer Ich Bin Gott, dois enfermeiros trajados como açougueiros e duas velhas cujo passatempo e contar novidades sobre celebridades mortas.
Para completar, quando o homem morre, descobre-se que essa historia não passa de uma encenação apresentada na festa de final de ano da Fabrica de Supositório Brasil, que ainda terá uma ultima atração: o show de Sonja Fodorovska, estrela do Quirquistão que, vestida como uma coelha da playboy, canta seu famoso Hit Iamblue. So blue Blue.
Por meio dessa narrativa nonsense, o espetáculo dialoga sobre uma sociedade em que as estruturas reguladoras do passado – como a família e a religião – perderam sua força e as ciências não obteve o êxito de proporcionar uma vida mais igualitária, apesar de suas inovações tecnológicas.
Sem a crença nas recompensas da religião e nas promessas da ciência, o individuo voltou-se a idéia de realizar a vida no presente, vivendo em uma época na qual os paradigmas são ditados pela mídia e pelas grandes corporações, que transmitem suas mensagens por meio da publicidade.
Tudo para refletir, de maneira cômica, sobre uma era em que o supérfluo domina os meios de comunicação e a própria comunicação entre as pessoas.



Espetáculo: A Ponto de Partir Dia: 09/10/2010 – Sábado 20horas
Sinopse

Duas mulheres, uma mala e uma revelação, elas mostram ai publico uma coleção de cartões postais e fazem uma viagem por momento de suas vidas. Já escreveram tantas coisas para pessoas que nem sabem mais quem são carregadas de uma doçura venenosa, de tão funda. As historias narradas pelas senhoras idosas estabelecem sensibilidade entre o humor, a saudade e a dor comungados entre as personagens e o publico. A ponto de partir trata de recordações do passado. Uma peça em que as lembranças buscam preencher o vazio da espera. A Ponto de Partir Trata das recordações de suas senhoras idosas. Elas mostram ao publico cartões postais que marcaram momentos se suas vidas, coisas escritas para pessoas que nem sabem mais quem são carregadas de uma doçura venenosa. A peça chama atenção pela sensibilidade criada entre o humor, a saudade e a dor que as protagonistas dividem com o publico ao contar suas estórias. O texto e baseado na obra da escritora Ana Cristina Cesar, mas também conta com inserções de episódios da historia pessoal das atrizes.

Espetáculo: Por quem choram as samambaias Dia: 10/10/2010 – Domingo 20 horas
Sinopse

Por Parsifal do Graal (Nunca Achado!) que – entretempos e em um entrelugar habitado pelo Angélico Trombeteiro, guardião de carreiras e agulhas, de papoulas e cogumelos – viaja pelos desvãos da memória e, entre "xaxins e varandas", revê seus desejos e medos, suas escolhas e justificativas e procura, desesperadamente, retraçar a rota da trombeta pára que ela não toque em Nova York.
Em um lugar "mágico", um homem se depara com seus medos, sonhos e desejos. Em meio a um emaranhado de lembranças e acontecimentos fantásticos, ele vê a sua vida passar como um flash-back e tem a possibilidade de, mais uma vez, escolher qual caminho seguir. O espetáculo trata, principalmente, do livre arbítrio, da memória e capacidade que tem o ser humano de criar desculpas e historias alternativas para justificar escolhas nem sempre bem sucedidas.

INFANTIS

Espetáculo: Zabelê, Caxinguelê e o Romance Perfumado
06/10/2010 – Quarta-Feira
14horas

Sinopse
O espetáculo é contado por dois personagens saltimbancos que levam para o público uma mensagem de amor, sempre de forma bem humorada, suas histórias utilizando bonecos e técnicas de Contação de história, onde um Marinheiro (Caxinguelê) faz promessas e juras de amor à sua Amada (Zabelê) debaixo de um pé de laranjeiras, mas Caxinguelê viaja pelo mundo afora demorando a voltar, o pai da donzela (Zabelê) exige que sua filha faça o casamento, escolhendo os pretendentes para sua ela.
O Teatro de Bonecos e Formas Animadas é a base estrutural e dramática do espetáculo e as técnicas usadas na confecção dos bonecos para este espetáculo são as mais variadas misturando luvas, varas, marotes, teatro de sombra e máscaras numa linguagem acessível para atingir todas as idades desde crianças e adultos a família toda o espetáculo tem duração aproximadamente de 45 minutos.



Espetáculo: Zito, O Espantalho
07/10/2010 – Quinta-Feira 
14horas
Sinopse
Zito, O Espantalho
A estória de Zito, um espantalho que sonha um dia ter poderes; quem sabe ser um rei, e dentro deste sonho, ele se conflita com alguns seres da floresta onde vive.
Lino, uma abelha que representa a liberdade dos seres na natureza e que e proibido do ato mais simples: cheiras as flores que circundam o espantalho. Desta proibição, cria-se a trama principal, onde a mentira e as falsas promessas são personificadas através de Margarete, a bruxa, que pactua com Zito alguns favores, favores estes que tem como motivo, a fuga de seu antigo namorado; Alcebíades, o bruxo bom, e que por ser bom, leva assim a sua amada bruxa a esta fuga desesperada.
Entre poções mágicas, capturas e descobertas, o que fica ao final e que o excesso de poder e mentiras pode levar as pessoas a se tornarem solitárias e muitas vezes desagradáveis.
Mas, como toda estória infantil, fica a chance de que nesta também se tenha um final feliz... Isto se, tudo o que foi prometido for mesmo verdade.


Espetáculo: As Aventuras de Pinocchio
08/10/2010 – Sexta-Feira 
14horas


Sinopse
As Aventuras de Pinocchio
Nessa livre adaptação de Tânia Alonso do clássico do italiano Carlo Collodi, a Cia Girasonhos traz uma proposta Brechtiana para crianças. A concepção do espetáculo utiliza a linguagem de mascaras para brincar de transformação, sem ilusão para o publico. Com trilha sonora original de Márcio Bá e apoiando-se no clássico de Collodi, a adaptação dramatúrgica e cênica propõe um jogo teatral aberto para apreciação e diversão.
Um grande artesão. A realização do sonho da criação: um boneco surpreendente que fala, caminha e... pensa!. Talvez seja nesse ponto o maior conflito de Pinocchio: Até que ponto pensar e agir por si só o torna um menino de verdade? Pinocchio, um boneco feito de madeira que queria ser gente, não conhece os conceitos e valores humanos e age sempre de maneira egoísta e impensada, contando muitas mentiras para conseguir e aquilo que quer e entrando em diversas confusões. Porem, para conseguir alcançar seu grande sonho, ele terá que passar por diversos apuros em suas aventuras e aprender diversas lições a partir de seus próprios erros e acertos, para então, convencer a Fada Azul de que é digno de ser UM MENINO DE VERDADE.

10º FETACAM

Inicia dia 06 de outubro o 10º FETACAM - Festival de Teatro de Campo Mourão, para saber mais, você encontra sinopse de todas as peças...

Bom espetáculo e que abram as cortinas

Grande Edgar - Luis Fernando Veríssimo

Já deve ter acontecido com você.

— Não está se lembrando de mim?

Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?

Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.

Um, curto, grosso e sincero.

— Não.

Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.

— Não me diga. Você é o... o...

"Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:

— Desculpe, deve ser a velhice, mas...

Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.

E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.

— Claro que estou me lembrando de você!

Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:

— Há quanto tempo!

Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.

— Então me diga quem sou.

Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:

— Pois é.

Ou:

— Bota tempo nisso.

Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais.

— Como cê tem passado?

— Bem, bem.

— Parece mentira.

— Puxa.

(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)

Ele esta falando:

—Pensei que você não fosse me reconhecer...

—O que é isso?!

—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.

—E eu ia esquecer de você? Logo você?

—As pessoas mudam. Sei lá.

— Que idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna. "Que saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)

— É incrível como a gente perde contato.

— É mesmo.

Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.

— Cê tem visto alguém da velha turma?

— Só o Pontes.

— Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)

— Lembra do Croarê?

— Claro!

— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.

— Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)

— Rezende...

— Quem?

Não é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.

— Não tinha um Rezende na turma?

— Não me lembro.

— Devo esta confundindo.

Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado.

Ele fala:

— Sabe que a Ritinha casou?

— Não!

— Casou.

— Com quem?

— Acho que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?)

— Claro que conheci! Velho Bituca...

— Pois casaram.

É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque.

— E não avisou nada?

— Bem...

— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?

— É que a gente perdeu contato e...

— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.

— É...

— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.

— Desculpe, Edgar. É que...

— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".)

— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?

— Certo, Edgar. E desculpe, hein?

— O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.

— Isso.

— Reunir a velha turma.

— Certo.

— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca...

— Bituca.

— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?

— Tchau, Edgar!

Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá sim nem não. Sairá correndo.


Texto extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 13.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A HISTÓRIA DE GLÓRIA, A VACA

Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes, uma barriga gorda, pêlos grossos e duros e os pés pesados.
Como não havia roupas à venda para o seu tamanho, tinha de ser ela mesma a fazê-las à mão. Fazia-as sem gosto nem grande jeito, e por isso, dentro daqueles vestidos, parecia ainda mais possante do que realmente era.
Tinha um andar atabalhoado e, quando falava, a voz era semelhante à de alguém a gritar para dentro de uma cisterna.
Glória não era modesta nem pensava tornar-se uma boa vaca leiteira como todas as vacas da sua idade. Não! Era ambiciosa e ansiava por qualquer coisa de grandioso!
Um engraçadinho qualquer, creio que a raposa, dissera-lhe que com uma voz tão bonita, devia estudar canto. Como tinha um pai rico que pagava tudo, teve aulas de música e, em seguida, deu ainda um concerto.
Todas as vacas vieram ouvir Glória cantar. Começou com A violeta na orla do caminho e esta foi também a última canção que cantou. É que, se quando falava a voz parecia que saía de uma cisterna, ao cantar, soava como dois elefantes a trombetear num regador em simultâneo com uma serra a cortar metal. A assistência tapava os ouvidos, assobiava, gritava e batia com os pés para não ter de ouvir aquela voz
horrível, ou então corria em debandada pelo prado onde o concerto estava a decorrer.
Glória parou e começou a chorar.
As vacas pensaram: “É agora que ela se vai tornar uma boa vaca-leiteira!”
Mas não! Teve aulas de dança e ainda quis tentar a sorte como bailarina!
Quando se apresentou pela primeira vez, vieram ainda mais vacas vê-la dançar do que quando cantou.
Glória apareceu no palco com uma saia tão grande que dava à vontade para fazer sete toalhas de mesa. Logo ao primeiro passo, tropeçou e caiu. As vacas na assistência riram-se, mas Glória não se deixou intimidar e deu um salto. Com o peso, as tábuas do palco partiram e ela caiu, ficando presa até à altura dos braços. Os espectadores riram-se, mas cinco fortes bois subiram ao palco e ajudaram-na a sair do buraco, onde ainda continuava a dançar. Novamente em cima do palco, Glória começou a dançar perigosamente perto da boca de cena. Desequilibrou-se e caiu, aterrando exactamente em cima dos músicos que estavam a tocar no fosso da orquestra
Quando voltou a erguer-se, com dificuldade, o contra-baixo estava partido, a trompete completamente espalmada, o tambor rebentado, o acordeão rasgado em dois e o maestro, com o susto, tinha engolido a batuta. Bem se pode imaginar as gargalhadas da assistência quando a bailarina desapareceu por detrás das cortinas.
Em consequência disto, Glória, muito envergonhada, emigrou para o país dos hipopótamos. Aí dançou para os pesados e grosseiros animais, e cantou ainda algumas das suas canções.
No dia seguinte lia-se no jornal:
A artista Glória, uma figurinha delicada e frágil, deu ontem um concerto onde também dançou. Nunca tinha sido possível no nosso país admirar uma voz tão clara e cristalina; nunca se tinha ouvido um canto tão belo. Dançou, melhor dizendo, flutuou com tal graciosidade que todas as nossas meninas-hipopótamos ficaram encantadas pela sua leveza. Esperemos que a artista Glória dance e cante mais vezes aqui entre nós, no país dos hipopótamos.
Paul Maar
Reinhard Michael (org)
Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen
Hochstadt, Gerstenberg Verlag, 2002


sábado, 18 de setembro de 2010

O Milagre - Stanislaw Ponte Preta

Naquela pequena cidade as romarias começaram quando correu o boato do milagre. É sempre assim. Começa com um simples  boato, mas logo  o povo – sofredor, coitadinho, e pronto a acreditar em algo capaz  de minorar sua perene chateação  - passa a torcer para que o boato se transformasse numa realidade, para poder fazer do milagre a sua esperança.
Dizia-se que ali vivera  um vigário muito piedoso, homem bom/tranqüilo, amigo da gente simples, que fora em vida um misto de sacerdote, conselheiro, médico, financiador dos necessitados e até advogado dos pobres, nas suas eternas questões  com os poderosos. Fora, enfim, um sacerdote na expressão do termo: fizera de  sua vida  um apostolado.
Um dia o vigário morreu. Ficou a saudade morando com a gente do lugar. E era em sinal de reconhecimento que conservavam o quarto onde  ele vivera, tal qual o deixara . era um quartinho modesto, atrás da venda. Um catre ( porque em histórias assim a cama do personagem  chama-se catre); uma cadeira, um armário tosco, alguns livros. O quarto  do vigário ficou sendo uma espécie de monumento à sua memória , já que a Prefeitura local não tinha  verba para erguer sua estátua.
E foi quando um dia ... ou melhor, uma noite, deu-se o milagre. No quarto dos fundos da venda, no quarto que fora do padre, na mesma hora em que o padre costumava acender uma vela para ler o seu breviário, apareceu uma vela acesa.
-    Milagre !!! – quiseram todos .
E milagre ficou sendo, porque uma senhora que tinha o filho doente, logo se ajoelhou do lado de fora do quarto, junto à janela, e pediu pela criança. Ao chegar em casa, depois do pedido – conta-se – a senhora encontrou o filho brincando fagueiro.
-     Milagre !!! – repetiram todos. E o grito “ Milagre !!!” reboou por sobre mentes e rios , vales e florestas, indo soar no ouvido de outras gentes, de outros povoados. E logo começaram as romarias.
Vinha gente de longe pedir ! Chegava  povo de tudo quanto é canto e ficava ali plantado, junto à janela, aguardando a luz da vela. Outros padres , coronéis, até deputados, para oficializar o milagre. E quando eram mais ou menos seis da tarde, hora em que o bondoso sacerdote costumava acender sua vela ... a vela se acendia e começavam as orações. Ricos e pobre, doentes e saudáveis, homens e mulheres, civis e militares  caíam de joelhos, pedindo
Com o passar do tempo a coisa arrefeceu. Muitos foram os casos de doenças curadas, de heranças conseguidas, de triunfos os mais diversos. Mas, como tudo passa, depois de alguns anos passaram também as romarias. Foi diminuindo a fama do milagre e ficou, apenas, mais folclore na lembrança do povo.
O lugarejo não mudou nada. Continua igualzinho como era, e ainda existe, atrás da venda, o quarto que fora do padre. Passamos outro dia por lá. Entramos na venda e pedimos ao português , seu dono, que vive há muitos anos atrás  do balcão, a roubar no peso, que nos servisse uma cerveja. O português, então, berrou para um pretinho, que arrumava latas de goiabada numa prateleira.
-  Ó Milagre, sirva uma cerveja ao freguês !.
Achamos o nome engraçado. Qual o padrinho que pusera o nome de Milagre naquele afilhado ? E o português explicou que não, que o nome do pretinho era Sebastião. Milagre era apelido.
-    E por quê ? – perguntamos.
-    Porque era ele quem acendia a vela, no quarto do padre.


( PONTE PRETA, Stanislaw . O melhor de ... – 3.ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1998. P. 14-5.)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Felicidade Clandestina - Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente,  informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração  batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse“ é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter.  Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim . Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo .
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Os melhores contos. Sel. Walnice Nogueira Galvão. SP: Global. 1996 p.44-46