Dali avistou um castelo de cristal.
Tomou um banho no riacho, e enquanto se aproximava,
ouvia um canto delicado, vindo de um jardim onde
graciosas jovens bordavam.
Espantadas com o relincho do cavalo,
as moças cercaram o rapaz com muitas perguntas.
Envaidecido com tantas atenções, ele nem se lembrou da falta dos dentes.
A Rainha das Fadas saiu do castelo e veio falar com o estranho.
- O que o traz ao nosso reino, forasteiro?
- Procuro o bordado de minha mãe.
- O vento tomou-o emprestado.
- Emprestado?
- Sim. Quando alguém cria uma técnica nova,
as fadas são obrigadas a aprendê-la para inspirar outras bordadeiras.
Falta saber como ela bordou as águas do lago e como conseguiu tão
belos tons de vermelho no horizonte.
- Quanto tempo ainda demoram?
- Não mais de dois dias e serás nosso hóspede.
Temos, porém, uma condição, meu jovem: do reino,
só poderá levar o bordado e boas lembranças.
Somente as fadas podem viver nesse reino.
A fada de vermelho se apaixonara à primeira
vista pelo rapaz e ele por ela.
Para se consolar, a moça resolveu aplicar uma pequena
fada de vermelho no bordado para que o amado se lembrasse
dela toda vez que o olhasse.
"Por que não era como os humanos, não impedidos de amar?"
Antes mesmo do dia clarear,
o rapaz pegou o cavalo e preparou-se para partir,
levando apenas o bordado e a dor da separação.
No retorno, as vagas do mar, o frio das geleiras,
o calor das labaredas não ameaçaram o moço.
A velhinha, o recebeu feliz.
- Estou orgulhosa de você.
Arrancou os dentes do cavalo devolvendo ao jovem.
- Agora você vai calçar essas sandálias mágicas
e estará em cada num minuto.
Sei que seu coração chora, mas lembre-se de que
NUNCA SABEMOS O QUE PODERÁ NOS OCORRER.
Ao chegar na aldeia onde morava,
uma vizinha veio falar-lhe:
- Sua mãe não se alimenta, não fica mais de pé,
não sai da cama dia e noite.
O moço, desenrolando o bordado, gritou:
- Olhe minha mãe, olhe seu bordado!
Consegui trazê-lo de volta!
- Vamos para fora - falou a mãe, já fortalecida.
- Finalmente poderemos admirar o bordado em paz.
Um inesperado vento, porém, surgiu novamente no auge
dos festejos e arrancou o bordado das mãos da mulher.
Só que desta vez, assim que ganhou altura,
o bordado ficou parado no céu, aumentando aos poucos de
tamanho até recobrir a aldeia.
E cada pedacinho ganhava vida, transformando o pobre vilarejo
num lindo, feliz e rico povoado.
- É um milagre! Um verdadeiro milagre!
- repetiam todos.
Feliz, o filho da viúva saiu correndo pelos imensos campos de flores,
achando o lugar tão belo como o da montanha encantada.
Pôs-se a chorar e lembrar da amada e foi ao lago na esperança
de encontrar consolo na placidez de suas águas.
De lá saiu uma jovem parecida com a fada de vermelho.
- ....quando tudo ganhou vida, a imagem que eu bordei também se tornou real.
Assim, estou aqui, sem ter saído de lá.
O jovem tomou a amada nos braços e a pediu em casamento.
E foram felizes naquela aldeia, iluminada todo final de tarde
pelo brilho de um sol avermelhado.
Os dois irmãos...dizem que vagam até hoje por ai.
Edmir Perrotti...Col. Lua Nova, Paulinas, 1998 Prêmio Jabuti 1997